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Transtornos Alimentares e a Psicologia

Do Nascimento aos Transtornos Alimentares

      Diante do nascimento, a comunicação entre a mãe e o bebê é iniciada através do choro, que proferido ao ar leva à mãe a exatidão daquela linguagem, sendo ela guiada pelo instinto materno, entendendo e aplacando o choro com afeto e leite, selando uma relação de plenitude e satisfação.

      Ao crescer e desenvolver-se, a criança pede e negocia com a mãe os seus hábitos e comportamentos, manipulando-os contra si e o outro, desenvolvendo a sua capacidade de sobrevivência e chegando a níveis complexos de inteligência e maturidade emocional. Muitas vezes, a comida tem um papel importante, pois ela é a ferramenta primordial desta relação.

      As questões alimentares estão presentes na vida do ser humano desde a mais remota fase do desenvolvimento até a sua morte, sendo a comida apreciada e odiada ao mesmo tempo, não servindo apenas como combustível para manter o indivíduo nutrido e saudável, mas também permeando as suas relações interpessoais em todas as esferas afetivas.

      A busca do corpo saudável é uma obsessão do homem moderno, trata-se de uma tentativa de atrasar o envelhecimento e se tornar um ser quase imortal. A sua aparência física é de suma importância em sua vida, sendo muitas vezes sinônimo de felicidade e sucesso. O problema se instala quando toda sua esfera emocional é construída sobre o físico, tendo como conseqüência em alguns casos, o surgimento dos transtornos alimentares, que cresce cada vez mais entre a população como: a obesidade, anorexia, bulimia e vigorexia, além do apelo à cirurgia plástica sem critérios, em busca de um corpo ideal. Assim, ser e ter se confundem nesta relação corpo-mente, abrindo espaço para a depressão, os medos, as manias, onde a angústia torna-se algo cada vez mais presente no cotidiano.

      Sabe-se que hoje a obesidade é uma questão de saúde pública, estando presente cada vez mais em todas as camadas sociais, atingindo grande parte da população. Mas a grande preocupação está nas crianças que, desde muito cedo já sofrem com os problemas dos adultos, como: colesterol, hipertensão e problemas nas articulações, gerados pelo sobrepeso, além das questões no âmbito social, como apelidos que afetam diretamente a auto-estima. Dessa forma, a comida pode servir como suporte para as frustrações e dificuldades afetivas.

      Apesar de toda a problemática na conscientização sobre os hábitos alimentares das crianças, alguns pais usam como recurso a chantagem e a ameaça. Tais estratégias costumam surtir efeito em um curto espaço de tempo, mas, a médio e longo prazos não se sustentam pelo desgaste emocional gerado para ambos os lados.

      No outro pólo, a anorexia e a bulimia desestabilizam os lares, levando muitas vezes a dificuldades sérias nas relações intra-familiares, fragmentando o amor e afeto entre pais e filhos.

      Nota-se que os problemas associados à alimentação são multifatoriais, pois extrapolam as portas da endocrinologia, psiquiatria, nutrição e educação física, sendo imprescindível o acompanhamento psicoterápico, principalmente na interdisciplinaridade no que diz respeito aos transtornos alimentares.

      A psicoterapia tem se tornado uma terapêutica que possibilita aos pacientes descobrir a origem dos sintomas, o enfrentamento destes, a consciência dos conflitos ou medo geradores da angústia e ansiedade, sendo possível o alívio do sofrimento vivido, seja pela supressão total do foco gerador dos sintomas, seja pela supressão parcial dos sintomas, fornecendo assim, uma qualidade de vida mais satisfatória que a vivida anteriormente ao processo psicoterápico.

Fabiano de Souza Botelho - Psicólogo clínico com especialização em Transtornos Alimentares, Obesidade e Cirurgia Bariátrica pela Divisão de Psicologia do Instituto Central Do Hospital das Clínicas - Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP).


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