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Obesidade Infantil

Crianças na balança

Natacha Suely Taboas Cavassani

Até as décadas de 40 e 50, o excesso de peso era admirado e até desejado por grande parte da população. Ser gordo significava ascensão política e social. E criança gorda era considerada cheia de saúde. Só depois da década de 50 é que novos estudos da Medicina comprovaram os males acarretados pela obesidade, afirmando assim a necessidade de seu controle. Começou a ficar claro que bebê com dobrinhas é fofo, mas ter dobrinhas depois dessa fase significa que a criança é gorda, o que pode ser muito perigoso para sua saúde.

Nos últimos anos, estamos vivenciando um aumento significativo nas taxas de obesidade em nossas crianças e jovens. Algumas estatísticas demonstram que até 20% das crianças estão com excesso de peso. Observe a entrada ou saída de qualquer escola e você tirará suas próprias conclusões. Isso nos conduzirá, num futuro não muito distante, a um aumento no número de pacientes hipertensos, diabéticos e com níveis aumentados de colesterol, sem levar em conta os distúrbios de ordem emocional como depressão e baixa auto-estima que acompanham este quadro.

Dietas milagrosas, chás e fórmulas mágicas já vem há algum tempo tentando resolver sem sucesso este problema. Concomitante a isto, o período que nossos filhos passam na frente da TV ou jogos de computador vem aumentando. Os vídeo-games possuem um efeito colateral que não consta dos manuais: eles engordam as crianças. É cada dia mais difícil fazer com que pratiquem atividades esportivas, até mesmo porque as cidades tornaram-se violentas demais para que possamos permitir jogo e brincadeiras de rua, passeios de bicicleta ou patinete: atividades saudáveis para todos os bolsos. Nas prateleiras dos mercados, fomos surpreendidos por uma avalanche de produtos com alto teor calórico, como bolachas recheadas de múltiplos formatos, snacks de todos os tipos, balas, refrigerantes. Grande parte das lanchonetes oferece brinquedos acompanhando lanches, o que estimula ainda mais nossos filhos a desejá-los. O que podemos fazer? Esperar por um medicamento milagroso? Proibir nossos filhos de assistir televisão? Ou de comer balas ou bombons? Não. Mas é preciso que a sociedade como um todo comece a enfrentar a obesidade infantil como um problema sério, que terá graves conseqüências.

Precisamos resgatar a prática da alimentação saudável, fazendo de nossas refeições momentos agradáveis de reunião familiar. Não se trata de proibir o consumo de alguns alimentos, mas limitar sua quantidade e presença em casa. Seu filho pode comer de tudo, mas isso não significa comer tudo o que vê pela frente.

Todos têm que participar. A obesidade infantil deve ser encarada como um problema familiar; por isso, os hábitos de todos da casa têm que ser ajustados. Avós, tios, primos, vizinhos, secretárias do lar; todos que participam da vida da criança devem ser orientados e convocados a participar das mudanças para o sucesso do tratamento.

Cabe aos pais, arranjar alternativas interessantes para o sedentarismo. Passeios a parques, caminhadas ou até mesmo diminuir a freqüência do uso do automóvel nas tarefas do dia-a-dia. O exercício praticado conjuntamente por toda a família é mais estimulante e propicia não apenas melhoria na saúde, mas também nas relações familiares, na intimidade e na proximidade.

Tarefa árdua também será das escolas, que precisam atuar como parceiros da família neste combate. Lanches saudáveis com frutas e o controle das merendas oferecidas pelas cantinas devem ser estimulados. Atividades educativas sobre alimentação podem ser inseridas no currículo escolar e eventos esportivos envolvendo pais e alunos podem ser realizados com mais freqüência, propiciando momentos de lazer, distantes das telas das TVs.

O sucesso no tratamento da obesidade infantil exige novas atitudes da família. Aliar os novos hábitos a um acompanhamento multidisciplinar, com médico, nutricionista, psicólogo e preparador físico é o melhor presente que os pais podem oferecer aos seus filhos que estão obesos.

Nossa meta não é o desenvolvimento de meninos e meninas com corpos esculturais, preocupados com alguns gramas na balança e neuróticos em busca da perfeição estética. Devemos nos preocupar é com a aquisição de uma vida com melhores hábitos para toda a família, com crianças mais ativas, saudáveis e felizes.

 

Natacha Suely Taboas Cavassani é pediatra, com especialização em Endocrinologia Pediátrica pela Unicamp. É Membro Titular da Sociedade Brasileira de Pediatria e responsável pelo Programa de Combate a Obesidade Infantil do Centro de Saúde Vila Ipê e do Instituto Nova Campinas.




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